Certa feita, eu recebi uma oportunidade para dividir uma reflexão com o grupo de oração da Igreja Metodista na Suíça.

Naquele tempo, a maneira que o Pai se relacionava comigo era bem curiosa: eu acordava e Ele lançava na minha mente uma palavra vaga que permanecia ali até eu ir destrinchá-la.

Nessa ocasião, nada foi alterado e de repente a voz murmurou “multidão, Larissa”.

Limitada, eu recorria ao estudo desse termo nos sites de buscas e pesquisas para ver se eu encontraria pelo menos uma passagem bíblica que pudesse ser o texto-base daquela pregação – sempre confiando que a revelação viria no decorrer da minha jornada ou na hora que eu tivesse que esquadrinhar o desconhecido com os meus irmãos.

Tentava descansar, mas a expressão gritava na minha mente.

Acho que Albert Einstein sempre teve razão quando dizia que “Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos; mas fazer ou não fazer algo só depende da nossa vontade e da nossa perseverança”.

Tomei minha posição e o “joelho” me acudiu.

Foi quando eu experimentei o “de repente” de Deus.

O ensinamento retornou em forma de pergunta: Quem é você na multidão?Eu fui transportada para Era messiânica, e imaginei a grande onda de seguidores que Jesus arrastava ou reunia a cada cidade que visitava.

Era uma variedade de personalidades e de identidades que ali existiam e que Ele precisava se relacionar, que ampliou minha visão para a igreja moderna, formando nesse momento um paralelo.

Me questionei sobre as motivações que levavam aquelas pessoas a ouvi-lo nas Sinagogas ou debaixo de um sol aceso do deserto, afinal poderia algo bom vir de Nazaré? (João 1:46).

Eram homens e mulheres comuns, crianças e velhos, doutores da lei, de altos cargos do governo romano, religiosos, servos, pais, mães, filhos, comerciantes, publicanos, cobradores de impostos, pescadores, ricos, pobres, prostitutas, leprosos na alma e na pele, estéril, pessoas que sangravam por dentro e por fora, abusadores, dentre outros.

Contudo, todos aguardavam na esperança de ouvir o mestre; de receber uma palavra de cura; de obter respostas para seus vazios e dúvidas; ou até mesmo almejavam acusá-lo ou replicá-lo torcendo por um deslize.

Naquela multidão, eu suponho que tinham todas as categorias de curiosos.

Uns não queriam nada dEle, só a fofoca em ter participado daquele evento; outros que perderam a oportunidade de conviver com Ele; outros que sequer perceberam a importância da sua chegada; e outros que escalava lugares altos só para testemunhar o rosto do Filho (Lucas 19:3-4).

Por Ele contemplar esforços, chamava-o pelo nome e se hospedava na sua casa.

Aquela família experimentaria oportunidades de mudança e de salvação eterna.

Outras se destacariam e seriam reveladas nas entrelinhas dos evangelhos, por ter ousado tocar nas vestes de Jesus sendo considerada imunda pela sociedade.

Não somente isso, mas na condição de enferma e frágil, ela encarou uma multidão no jeitinho “furando a fila” para obter seu milagre.

Mais, foi corajosa em se apresentar quando fora questionada.

Sua cura foi alcançada e veio em efeito de virtude (Marcos 5:24-34).

Uma mulher como essa nos ensina que o fluxo de sangue é lugar de padecimento e perdas, mas Jesus é “lugar” de restabelecimento do físico, do emocional e do financeiro; da remoção da vergonha; e da alforria de prisões que vivemos por anos.

Nessa mesma ocasião, pessoas que peregrinavam ao lado do Messias, revelaram uma atitude de quem não o conhecia no profundo.

Ao solicitar que o Mestre reconsiderasse que tinha sido tocado visto o tamanho do aglomerado, expôs uns escolhidos em processo de maturidade (Marcos 5:31).

Ora, Jesus faria um teatro? Às vezes, o nosso tempo de “igreja” não traduz nossa intimidade.

Precisamos nos adentrar em lugares secreto para Deus mostrar quem somos.

Uma estação dolorosa, mas preciosa que vai nos patrocinar para o Reino.

A Bíblia sempre fala em “multidão”.

Esses não passaram de um aglomerado de pessoas, sem nomes, sem identidades e sem histórias contadas (conhecido somente como um conjunto).

Escutam a mensagem e claramente não estão próximos o suficiente para aprender.

Ou preferem regras simples para cumprir (Lucas 3:10).

Mantém-se, mas não se posiciona nEle, chamados de “amigos do evangelho”.

Louvado seja os devocionais que encurtam nossos caminhos nos mostrando relacionamentos práticos com Deus.

Mas nem sempre será assim.

Haverá aquele dia que o encontro é particular.

Jesus veio para todos, não alimente uma falsa humildade de que não irá “perturbar” o mestre para obter sua benesse, pois a maior delas muitos têm perdido: a conveniência de se relacionar com Ele.

No amontoado, há também sempre aquele que escuta o pedido do líder, mas se pronuncia quando solicitado.

Ele é prudente, obediente e confia no seu mestre.

É o agente que porta os objetos do milagre, e com isso, alimenta muitos com cinco pães e dois peixinhos (João 6:1-14) desafiando a proporcionalidade.

Porém, há também o alimentado, que só segue Jesus porque vê os milagres que Ele opera e não vê mais vantagem em retornar ao ambiente do passado (cidade ficou distante e seria cansativo encarar um retorno).

Fica onde está, mas sem propósito aparente.

No grupo, há o cego que vence a multidão e aufere a compaixão do filho de Davi (Mateus 10: 46-52) que o anima, que o levanta e que recupera sua visão; e existem aqueles que ordenam o deficiente visual se calar, tentado retardar o milagre desse pobre homem que só tem o grito para chamar atenção e assim, não ratear sua oportunidade de mudança de vida.

Desdenham de sua fé e da confiança naquele que é capaz de íntegras metamorfoses.

Ou eles achavam que estavam fazendo boas obras de cuidado para que ninguém incomodasse Jesus? Quem já se pegou defendendo-o quando Ele é chamado Advogado? Hoje, eu gostaria de ajudar a desconstruir essa nossa qualidade diante do Rei.

Ele é o “Eu sou”, e não o que os outros acham que Ele seja.

O que precisamos fazer é orar para que o Espírito Santo convença os afrontadores do seu pecado, da sua justiça e do seu juízo, porque um dia, nós também fomos um deles (talvez não na mesma intensidade).

Na massa, há os que obedecem de forma rasa porque é conveniente (Mateus 15:35).

Sente, levante, participe, evento A, B e C dia tal, doe.

Tudo em sua vida vai bem e é oportuno essas execuções.

Mas quando o pedido é mais profundo, eles recuam (Marcos 10:21-22).

Vender tudo que temos, dar aos pobres e o seguir não é uma atitude “nutella”, e sim raiz.

Se despir de quem somos por amor a Cristo é a maior prova de que estamos submersos na confiança dos seus desígnios.

Nossos pés não alcançam o chão, mas tudo bem.

E para atingirmos essa superfície é preciso processo, prazo e recurso vencido para cumprirmos.

Mas a oração (faça Teu querer em mim) uma vez pronunciada, a “sentença” será proferida em favor do Reino.

Eu fui encontrada no grupo.

Aquela que vê os milagres acontecendo na vida de todos do seu ciclo, mas não “experimentava” esse universo.

Que se entristecia achando que não era digna ou se aborrecia com Jesus, achando que o Pai tinha “queridinhos” e você não era um deles.

Na verdade, Ele sonda nosso coração, e por amor não libera o milagre que queremos, mas o que precisamos.

A porção descia sim: no tempo oportuno, na medida de minha maturidade e de forma diversa da que eu anelava.

Mas minha natureza ingrata não conseguia completar.

Mesmo assim, sobrava em mim a benevolência de levar meus amigos até o milagre que eles desejavam (e assim acontecia), porque o meu desejo do outro alcançar era maior que minha ferida.

Para concluirmos, não sei se sua identidade foi revelada nessas letras.

Você pode ter sido a pessoa que recebeu a benção, e isso basta; a íntima que almeja mais; ou a que não conhece Cristo, só de ouvir falar.

Você pode ter se visto em mim.

No entanto, em todo caso Jesus nos convida a restaurar os altares quebrados ou a nos achegarmos na atmosfera de convívio, porque Ele quer construir uma identidade parecida com a multidão que irã louvá-lo no céu (Apocalipse 7:9-10).

Afinal, altar delibera trono e trono define o governo de Deus, aquele que estabelece a ordem e a paz que tanto ansiamos.